Entre mãe e filho

As relações entre mães e filhos são repletas de sutilezas. Uma forma de mergulhar nesse universo é o filme italiano ‘Belos sonhos’, de Marco Bellocchio. O romance autobiográfico de Massimo Gramellini ganha uma versão delicada, em que se destaca a dificuldade dos protagonistas de lidar com a crueza cotidiana.

Na cidade de Turim, um jornalista bem-sucedido sofre perante um fato que marcou toda a sua vida: a morte de sua mãe quando ele ainda era criança. Prefere acreditar na versão do pai, de quem é bem distante, de morte súbita, embora todos os fatos indiquem que se trata de suicídio. A dificuldade em assumir a tragédia mostra como o acontecimento deixa marcas profundas.

O trágico desaparecimento da mãe encontra um paralelo no igualmente impactante acidente aéreo que matou toda a equipe de futebol do Torino, da Itália, em 1949. O falecimento inesperado é o que une dois fatos igualmente marcados pela dor da perda, um na escala pública; e outro, na individual.

A última cena do filme é um ícone dessa relação complexa entre mãe e filho. Brincando em casa de esconde-esconde, o menino não a encontra e cai em profundo desespero, só sossegando quando ela decide terminar o jogo e aparece.

Os dois se abraçam carinhosamente num armário, local que funciona como um útero de proteção. É uma bela metáfora para uma obra que traz de maneira contendente e delicada nuanças de elos complexos, de amplo espectro emocional e de difícil compreensão racional.

– Por Oscar D’Ambrosio*

*Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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