Agroindústrias investem em caminhões

Alvo de duras críticas de produtores, agroindústrias e tradings, a tabela de preços mínimos de fretes rodoviários que aguarda sanção do presidente Michel Temer, estimula um número cada vez maior de projetos que preveem a criação ou o reforço de frotas próprias de caminhões para o escoamento das safras. Para cargas a granel como soja e milho, os valores de fretes para longas distâncias até agora propostos representam, em média, altas de cerca de 30% a 50% em relação aos que vinham sendo praticados, de acordo com estimativas.

Contra

Maior exportadora de soja brasileira, a americana Cargill, que desde a primeira versão da tabela de fretes, usada por Brasília para encerrar definitivamente a recente greve dos caminhoneiros, posicionou-se veementemente contra o tabelamento, voltou a sinalizar que poderá investir em uma frota própria para entrar em operação já nesta safra 2018/19.

Repensar

“Com o tabelamento, indústrias e exportadores terão que repensar a forma como irão operar no Brasil”, disse, em comunicado, Paulo Sousa, diretor de grãos e processamento da companhia para a América Latina.

Ruptura

Segundo ele, a intervenção do governo no mercado de fretes cria “uma ruptura no funcionamento natural da cadeia de suprimentos e desequilibra os contratos, a ponto de comprometer a confiança na expansão sustentável do agronegócio”, além de abrir caminho “para oportunistas trabalharem na informalidade”. Nesse contexto, a Cargill reforçou que analisa para a safra 2018/19 adquirir frota própria de caminhões e contratar motoristas.

Coamo

A paranaense Coamo, maior cooperativa agrícola da América Latina e outra grande exportadora de grãos, tem sobre a mesa um projeto até mais avançado. O grupo, com sede no município de Campo Mourão, acaba de fechar a aquisição de 152 novos caminhões, que já havia sido aprovada para renovar sua frota própria de 280 veículos. Mas a Coamo só decidirá se de fato seguirá o roteiro previsto e venderá um número semelhante ao total adquirido, que estará à disposição até janeiro, depois que uma tabela definitiva de fretes entrar em vigor.

“Frota dedicada”

Além dos caminhões próprios, a Coamo opera uma “frota dedicada” de cerca de 600 veículos que pertencem a transportadoras. A cooperativa, que movimenta mais de 10 milhões de toneladas de cargas a granel anualmente, também contrata junto a transportadoras serviços para agilizar o escoamento em picos de colheita e, eventualmente, recorre a fretes no mercado spot. A frota própria, composta basicamente por bitrens de sete eixos, responde por 15% da movimentação total de cargas a granel do grupo.

Aumentos

Segundo Airton Galinari, superintendente de logística e operações da Coamo, os últimos valores apresentados pelo governo para os fretes chegam a representar aumentos de 80% a 100% em relação aos custos da frota própria – que normalmente opera em curtas distâncias, nas rotas que chegam às cerca de 60 lojas de insumos, peças e maquinários da cooperativa no Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul – e de 50% na comparação com os custos da “frota dedicada” de 600 caminhões.

Aquisição

Maior empresa de proteínas animais do país, a JBS também está se mexendo por causa do encarecimento dos fretes rodoviários. A companhia acaba de fechar a aquisição de 360 caminhões e estuda ampliar essas compras caso os fretes não sejam revistos, disse uma fonte próxima à empresa de carnes. A frota própria da JBS – que, procurada, preferiu não comentar o assunto – representa mais ou menos um terço do número total de caminhões utilizados em suas operações.

Avaliação

Fontes do setor de agronegócios consultadas pela reportagem nos últimos dias afirmaram que é difícil encontrar produtores ou empresas que não estejam avaliando contar com transporte próprio para amenizar a alta dos fretes.

Laticínios

Exemplo desse movimento são os laticínios, que reclamam do grande peso dos custos com transporte em suas contas. “O setor do leite trabalha exclusivamente com transporte rodoviário e não tem alternativa. Dessa forma, o impacto será mais expressivo no produto”, afirmou Alexandre Guerra, presidente do Sindilat, que representa os laticínios gaúchos e defende a livre negociação dos fretes. “Não existe espaço para a adoção de tabelas de valores mínimos. Esse custo quem vai pagar é o consumidor”, acrescentou ele em comunicado.

Absorção

O Sindilat confirmou que, para driblar a alta nos custos, algumas empresas do segmento estudam absorver a atividade de transporte ou pelo menos parte dela – alguns laticínios já são responsáveis pela captação do leite nas fazendas produtoras.

Risco

Para o dirigente, o risco é que o encarecimento do frete leve à revisão de rotas de coleta de leite, o que poderia até acarretar abandono de áreas de pouco volume de produção da matéria-prima. Outra que se debruça sobre a equação dos custos de transporte é a Copersucar, maior comercializadora de açúcar e etanol do país.

Chance

“Achamos que a chance do tabelamento dar certo é nenhuma. Mas, no limite, faríamos frotas próprias”, afirmou Paulo Roberto de Souza, presidente da companhia, ao Valor. Segundo ele, a Copersucar é menos atingida pela medida porque 60% de sua movimentação já se dá por meio de ferrovias. Mas o restante é movimentado em rodovias e justificaria uma frota própria.

– Fonte: Valor Econômico

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *